"De alta voltagem lírica, Frank O'Hara tem seus poemas traduzidos", resenha na Folha d

Saiu hoje na Ilustrada uma ótima resenha do livro "Meu coração está no bolso", de Frank O'Hara, por Rodrigo Garcia Lopes. Leiam no link a seguir ou mais abaixo, depois deste post: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/06/1893479-de-alta-voltagem-lirica-frank-ohara-tem-poemas-traduzidos.shtml

No finalzinho do seu texto, o resenhista critica a escolha editorial feita por nós nesta edição bilíngue de colocar os poemas em inglês no final do livro. Segundo ele, seria "mais acertado" se os poemas entrassem lado a lado, ou seja, o inglês espelhando a tradução em português.

Essa escolha editorial teve um motivo e gostaríamos de explicitá-lo aqui como uma maneira de abrir nossa “caixinha de ferramentas” editoriais.

A opção de colocar os poemas lado a lado pode ser mais prática para o leitor que busca comparar a tradução com o original ou verificar alguma dúvida. Por outro lado, ela traz implícita uma hierarquia entre original e tradução. Ao colocar os originais em inglês no final do livro e apresentar os poemas em português sem interrupções, como um bloco, queríamos de algum modo tratar os poemas em português como “originais” também, queríamos sinalizar para uma leitura do livro inteiro na nossa língua. Como colocou o poeta Emmanuel Hocquard, em tom de brincadeira, as edições bilíngues com poemas lado a lado podem estimular uma séria competição entre os textos.

Sabemos que vários leitores de poesia são bastante especializados e que já leem os poemas ouvindo os ecos da língua original, mas não queríamos determinar isso na montagem do livro.

Achamos que essa mesma opção editorial feita ao contrário – um livro de um poeta lusófono publicado em inglês com os originais lado a lado – teria um sentido diferente. Em uma comunidade linguística como a inglesa em que não há muitas traduções de poesia estrangeira, colocar a língua portuguesa no meio dos poemas poderia ter o sentido de dar a ver o outro, de levar algum tipo de estranheza para a leitura em uma língua hegemônica. No Brasil, onde vários leitores de poesia têm uma relação estreita com outras línguas, e já conheciam o trabalho de Frank O’Hara mesmo sem ele ter edição publicada aqui, a escolha de destacar os poemas em português pode ser vista como uma maneira de pensar em nossos recursos, e de pensar em como nossos tradutores usam esses recursos, em como escrevem na nossa língua. Os originais em inglês estão no final do livro, para quem quiser fazer o cotejo ou ler o livro no original. A tradução aqui é outro original.

Consideramos que a crítica feita traz à tona um debate antigo sobre tradução de poesia que se reflete numa conhecida fórmula de outro americano: “A poesia é o que se perde na tradução" (Robert Frost), repetida recentemente no 'Paterson' do Jarmusch: “Ler um poema traduzido é como tomar banho com uma capa de chuva”. Gostaríamos que a tradução trilhasse um caminho paralelo ao original, que ela pudesse ser outro chuveiro caindo outra água (e não uma capa de chuva), e que fosse poesia e seguisse um caminho não subordinado. De algum modo, nossa escolha editorial tentou apontar para isso.

_________________________________________________

De alta voltagem lírica, Frank O'Hara tem poemas traduzidos

Rodrigo Garcia Lopes

MEU CORAÇÃO ESTÁ NO BOLSO (muito bom) AUTOR Frank O'Hara TRADUÇÃO Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto EDITORA Luna Parque QUANTO R$ 40 (88 págs.)

*

"Meu Coração Está no Bolso" traz 25 poemas de Frank O'Hara (1926-1966), um dos poetas americanos mais relevantes da segunda metade do século 20. No Brasil, desde os anos 1990, ele vinha sendo traduzido esparsamente, mas esta é a primeira reunião de poemas dele em livro.

O'Hara costuma ser considerado figura central da chamada Escola de Nova York. O termo define não um movimento, mas um grupo de poetas-amigos com interesses em comum: o horror ao formalismo estéril dominante na poesia do pós-Guerra, a pintura expressionista abstrata e uma atitude informal e antiacadêmica.

A poesia de O'Hara, coloquial e de alta voltagem lírica, é tributária de Walt Whitman, do surrealismo e, sobretudo, do lirismo ambiente, do simultaneísmo, dos poemas-passeios e poemas-conversas de Apollinaire. Quer captar o imediato, o aqui-e-agora do poema, numa espécie de zen nova-iorquino.

Uma de suas marcas registradas é começar o poema precisando o dia, hora, o clima ou local de sua ocorrência, como em "O Dia em que Lady Morreu": "São 12:30 em Nova York uma sexta / três dias após o Dia da Bastilha, sim / estamos em 1959 e estou no trem indo ao engraxate / pois vou saltar do trem das 16:19 em Easthampton / às 9:15 eu vou direto jantar / e nem conheço as pessoas que vão me dar de comer".

Ler poemas como esse ou o delicioso "A Um Passo Deles" é tentar acompanhar, em tempo real, a mente atenta e fantasista do poeta enquanto flana pela metrópole e a incorpora fragmentariamente.

Já "Versos para os Biscoitos da Sorte" é composto apenas de frases paratáticas inspiradas nas mensagens "positivas" de biscoitos da sorte de restaurantes chineses, satirizando seu tom de profecia.

O livro traz também outros poemas representativos como "Autobiografia Literária", "O Amante", e "À Memória de Meus Sentimentos".

As traduções são de alto nível, recriando os poemas em português e as características linguísticas, os vários registros da poesia de O'Hara, muitas vezes com ganhos.

Exemplo rápido: o penúltimo verso de "Avenida A", "but for now the moon is revealing itself like a pearl" é vertido como "mas por ora a lua se desnuda como uma pérola". Aqui, a própria linguagem simula, com sua dança de letras, o strip-tease lunar.

Os 25 poemas representam 4,9% de sua obra (constam 510 peças na edição de seus poemas completos). Como dar conta, em poucas peças, de uma poesia que, além de profusa e frenética, é marcada por várias fases e estilos?

O livro tem o mérito de ser bilíngue (crucial em matéria de poesia), mas a colocação dos originais ao lado das traduções, e não no fim do livro, seria uma decisão editorial mais acertada.

Apesar de terem ficado de fora poemas essenciais e representativos, é uma iniciativa louvável em tempos de trevas: "estamos mesmo em apuros, esparramados / pés para cima apontando o sol, rostos / minguando na escuridão colossal".

RODRIGO GARCIA LOPES é autor de "O Trovador" (Record) e "Experiências Extraordinárias" (Kan)