Frank O'Hara, coro de traduções

Hoje é o lançamento de Meu coração está no bolso, de Frank O'Hara, com tradução de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto.

O Frank O'Hara tem uma antologia publicada em Portugal pela Assírio & Alvim, chamada Vinte e cinco poemas à hora do almoço, com tradução de José Alberto Oliveira, mas permanecia inédito em livro no Brasil. Apesar de disso, ele tem circulado bastante em revistas e sites por diferentes tradutores; uma rápida busca no Google já dá conta de encontrar várias dessas vozes que tem vertido o O'Hara ao português. Para adensar as boas-vindas ao poeta e juntar uma amostra desse coro de vozes, selecionamos quatro poemas nas traduções de Luiza Franco Moreira, Ricardo Domeneck, Ismar Tirelli Neto e Julia Rodrigues.

Além do O'Hara, hoje tem também lançamento dos livros "Má formação", de Leonardo Martinelli e "Coração à parte", de Jorge Wanderley. Estão todos convidados para estar lá conosco, a partir das 19h, no Espaço Olho da Rua(Rua Bambina, 6, Botafogo)

Parece que estamos mesmo com o coração aberto.

Na foto acima, O'Hara está no jardim do MoMA simulando a pose do São João Batista de Rodin.

Tradução de Luiza Franco Moreira:

"Uma Coca-cola com Você"

é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne

ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em Barcelona

em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor e mais feliz

em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte

em parte por causa das tulipas laranja fluorescente contra a casca branca das árvores

em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária

é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada

tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas

na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo de um lado para o outro

como a árvore respirando pelos olhos de seus nós

e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta

de repente você se surpreende que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los

olho

para você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo

exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está na Frick

aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso ir junto com você a primeira vez

e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo

assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou

num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar

e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa

quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava

ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem quanto

o cavalo

acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa

que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando

(publicado na revista Inimigo Rumor 9;

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Tradução de Ricardo Domeneck:

"Poema" Há dias em que sinto exalar uma fina poeira como aquela atribuída a Pilades na famosa Chronica nera areopagitica ao ser descoberta e é porque um arqueólogo adentrou a câmara secreta do meu peito e chacoalhou o papel que carrega seu nome Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.

(publicada na revista Modo de usar & co.,

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Tradução de Ismar Tirelli Neto:

"Autobiographia litteraria"

Quando eu era pequeno brincava a um canto do pátio do colégio completamente só.

Odiava bonecas e a mim os jogos não me apeteciam, animais não eram simpáticos e pássaros voavam pra longe.

Se alguém procurasse por mim escondia-me atrás de uma árvore e berrava “Sou órfão”.

E cá estou eu, o centro de toda a beleza! escrevendo esses poemas! Imagine!

(publicado na revista Um conto,

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Retrato de O'Hara por Elaine de Kooning

Tradução de Julia Rodrigues

"Por que eu não sou pintor"

Eu não sou pintor, sou poeta. Por que? Eu acho que preferiria ser pintor, mas não sou. Bem,

por exemplo, Mike Goldberg está começando uma pintura. Eu apareço. “Senta e toma uma bebida” ele diz.Eu bebo; bebemos. Eu olho para cima. “Você pôs SARDINHAS nela.” “Sim, ela precisava de algo ali.” “Oh”. Eu me vou e os dias passam e eu apareço de novo. A pintura está indo, e eu vou, e os dias passam. Eu apareço. A pintura está pronta. “Cadê SARDINHAS?” Só restaram algumas letras, “Era demais”, Mike diz.

Mas eu? Um dia estou pensando em uma cor: laranja. Eu escrevo um verso sobre laranja. Em breve será uma página toda de palavras, não versos. Então outra página. Deveria haver tanto a mais, não de laranja, de palavras, de como laranja é terrível e a vida. Os dias passam. Está até em prosa, eu sou um poeta de verdade. Meu poema terminou e ainda não mencionei laranjas. São doze poemas, eu chamo de LARANJAS. E um dia na galeria eu vejo a pintura de Mike, chamada SARDINHAS.

(publicado no site "Conversa entre ruínas".

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