Vinhetas

Alice Sant'Anna & Zuca Sardan

Recuerdo para gente de futuro infinito: este poema não termina aqui – resenha sobre ONZE DUODÉCIMOS, de Horácio Costa (Lumme, 2014)

Ana Cristina Joaquim[1]

 

O luxo do esquecimento e a necessidade da memória

 lutam, se anulam, amam-se gerações afora (...). Não há

memória que não preveja esquecimento. Nele, sólidos,

carregam-se os fatos que medram no Tempo.[2]

 

Foi este o meu primeiro contato com a poesia de Horácio Costa, em maio de 2009, por ocasião da comemoração dos 20 anos do lançamento de Satori, num bonito evento ocorrido na Casa das Rosas, em que pude escutar alguns versos ditos pelo poeta in situ. A essa altura eu já havia cursado, por cinco anos a fio, a graduação em Letras na Universidade de São Paulo, onde o poeta leciona poesia e cânone. Não apenas eu não havia frequentado o seu curso, como eu ignorava o possível acesso a uma poesia de tal densidade que se avizinhava das salas de aula que frequentei ao longo de, aproximadamente, 1218 dias. Daí em diante, inescapável imergir nessa poética, que muito além dos livros, abrangeu minha formação em andamento: já na condição de pós-graduanda, pude ouvir o timbre cirúrgico do professor/poeta (ou do poeta/professor...), de modo que, rapidamente, o poema como representação livresca  ganharia a dimensão de uma existência, exalando o odor próprio aos humores por onde corre o sangue e as veias inflam, circuito de gravitação da voz tal qual riso lírico e tudo mais que fosse palpável: o acesso do corpo, a palavra feito carne.

Tal o impacto da leitura de 11/12 ONZE DUODÉCIMOS, que li neste ano de sua publicação (2014), depois de, sucessiva, submergir em 28 poemas/6 contos; The Very Short Stories, Quadragésimo, Fracta, Paulistas e Homoeróticas, Ravenalas, Ciclópico Olho, e o Jabuti 2014: Bernini. Impacto maior é perceber o elo, os contínuos crônicos, aquilo que mais ou menos vagamente denomina-se a voz poética. Afinal, é de existência que se trata, carnatura, sopro e falésias (e que se mantenha o Mar aberto!); por impedimento maior não se poderia supor incoerente uma existência que se necessita pendular: inscrição, excrição.

Se os espaços são insistentemente enquadrados como em paisagem verbal que se insinua – e este 11/12 é mesmo um golpe de vista em Granada/Nicarágua, Braga/Portugal, Zurique, São Paulo, Rio de Janeiro, Osasco, Porto, Lisboa, Berlim e Budapeste – há que se atentar para a ênfase disposta em numerais arábicos como escolha para o título: a fração subverte a lógica matemática para incidir sobre a lógica mnemônica e, por que não?, o que de mais pungente pode haver de alogicismo ou de absurdo na prática da anamnese.

Dos poemas escritos entre 2011 e 2012 para este volume, muito me salta à vista e bastaria elencar: este “intento de prática civil”[3] –  conscienciosamente exposto, anos antes, pelo poeta de Paulistanas e Homoeróticas – ostensivamente empenhado neste 11/12 (“política se faz a cada dia/ em qualquer lugar e agora/ neste texto”), em, ao menos, duas frentes desenvolvimento; 1) a frente homoerótica: “Entre os séculos XX e XXI/ Ao sul da América do Sul/ Um indivíduo do gênero masculino/ E de origem social abastada/ E que se considerava de sensibilidade aguçada/ E tinha proclividades sexuais/ Incoincidentes com as da maioria”, “Como a bicha do Tchaikóvskj/ Fez em sua viada sede de/ Autoimolação, yo la peor de todas...”, “(...) poucos exemplos tem de poetas homossexuais/ que lidam em português com suas histórias de amor/ bem ou mal em público:”, “(...) na minha iconologia/ pessoal parece um monumento em miniatura/ ao formato de um cu fistado com paixão;”, “este casal/ o Francisco negro e com 30 e poucos/ e eu de barba branca e com 50 e muitos/ foi um desafio para o seu autocontrole”; e, 2) a frente feminista: “Algum filólogo me explique/ Quando e como a senhor virou/ A senhora e o senhor, o índice/ De suserano?”, “A Bela da Tarde mandava ver muito bem/ todas as tardes (...)”, “(...) no dia em que as mulheres// pensarem com olhos próprios e decidirem/ que a história literária pode ser mais do que um/ campeonato entre varões quase sempre héteros/ e narcísicos”.

Salta-me à  vista a versificação acentuadamente marcada pelas inversões sintáticas (“Hoje, quando muda do tempo a densidade?”, “Que cantam, não: gritam e se exibem”, “como se falsos favos na formação/ geométrica dos verdadeiros, de mel:”); bem como as constantes manifestações do enunciador, seja mediante as interrogações (“Poemas serão perfunctórios?”, “Será, portanto, assim?”, “Com o que sonhamos quando sonhamos/ Que em sonho escrevemos um poema?”, “Sim ou não?”, “Qu’est-ce que j’ai? “Qu’est-ce que j’ai?, “E você?), seja mediante a explicitação da escrita enquanto metalinguagem – ou a derrubada da quarta parede, como num Brecht (“é a mim mesmo que falo”, “E quem chorará/ (conjugação horrível) não sobre, mas por/ uma colcha?”, “O pobre Manuel, o qualificativo me horroriza/ mas me recusarei a elidi-lo quando revise este poema:”, “Este poema não termina/ sem a menção a tais virtudes/ animais”) – todos procedimentos que ocupam-se de convocar o leitor à árdua tarefa de destituir a geografia do ARQUIPÉLAGO MONOLÓGICO, conforme o título de um dos derradeiros poemas, para instituir o “mundo dialólgico”.

Salta-me à vista (embora o apelo seja à escuta...), o recorrente silêncio-quase-cochicho que ressoa, pedra de toque que permite – e até mesmo induz – a passagem de um a outro poema, tais os versos finais: “Me utilizo para a escritura/ Deste poema/ Para por fim silenciá-lo”, “Eis-me de volta à abóbada,/ Perdido de novo no poema”, “Impossibilidade que mentalizo e escrevo/ E me calo”, “(...) nem escreveria/ Este poema: heraclitiano,/ Calar-me-ia.” “Consome-se o tempo, finda o poema”, “ainda não terminou”, “alta rebentação brilhante e muda”.

Salta-me à vista, ainda, o BESTIÁRIO COTIDIANO, que ultrapassa o poema com título homônimo para abarcar uma série de três poemas dedicados à relação com a chow-chow Carlota, dois poemas em veneração aos falcões (o Hórus em trânsito entre São Paulo e Osasco), o dragão azul, os elefantes, os tigres, a abelha, o lagarto, os camaleões, os calangos, as iguanas caribenhas, “essas carpas/ KOI”, o leão.

 “Meu cachorro me ensina que o tempo não é/ O tempo de todos, mas o “tempo” dos homens.”; e eis a deixa para um passo além: deste muito que me salta à vista, há, entretanto, essa paisagem temporal que me permite afirmar os contínuos crônicos acima referidos, a lógica mnemônica, o absurdo da prática da anamnese, e o elo que intento traçar entre Satori, sendo este meu primeiro contato com a poesia de Horácio Costa, e este último livro que aqui resenho: o luxo do esquecimento e a necessidade da memória lutam, se anulam, amam-se gerações afora, dizia o poeta nos finais daquela década de oitenta. Diz agora: “O vulcão, já disse, está encoberto/ por uma pátina de recuerdos.”, “Carlota, a chow-chow senecta, assusta-se/ com fantasmas que recordarão/ aos seus caninos escaninhos de memória”, “Então estamos de volta a aquelas/ Idades? (...)”, “Assim é ver depois de tais/ Desenrolares da memória guardada/ Em todos nós e neles que também/ São nós (...)”, “Ninguém me puxa pelas mãos/ Há muito tempo. Só a memória/ Me empurra para a frente/ E imperativa cancela o presente.”, “Reescrevo de memória verso a verso/ O poema ‘Obituário’ (1988).”, “aqui, senhores, há memória” (a respeito do estampado de uma colcha tipo cetim) e, ainda, sobre a mesma colcha: “A memória estava em outro escaninho/ e as lágrimas subiram, como se diria,/ sem pejo.”, “gente morta porém viva neste agora./ Escondiam-se em alguma dobradura da qual não tinha eu memória.”, “Escrevo sob o impacto da descoberta/ das velhas, desbotadas fotos: e são/ não mais que dezesseis os anos/ de hoje àqueles momentos.”, “escrevo porque há jovens,/ escrevo por não haver memória acumulada/ e porque quando não há memória acumulada/ nada a fazer senão acumulá-la”, “Escrevo como quem participa de uma/ cerimônia secreta de exumação. Os mortos.”, “(...) a memória é/ Um jardim cujos caminhos bifurcam-se/ E Ariadne já mais comigo senta-se/ Para o ritual do café da manhã”.  E por fim estes versos, que ilustram o colecionismo deste apreciador de invulgatas em joalheria:

(...) tais vidrilhos compro

como quem colecionasse bilhetes

não assinados por anônimos heróis

de um passado ainda próximo e já ido,

quando o homo americanus a si se atinha

mais do que aos multiplicantes seus

compromissos globalizados insustentáveis,

quando tão à mão estava-lhes a felicidade

que a moldavam, inscientes, em seus dedos

e amavam e bebiam e morriam como gente

de futuro infinito.

Ora, a memória do sujeito para além do sujeito: a memória do cão, a memória social, a memória ativista, a memória histórica de quem coleciona memórias. A memória como fantasma, a memória como feixe de átomos, a memória-unidade-mínima, a memória portal para um passo à frente: o futuro.

Se não é a memória o elo próprio que confere toda coerência desta existência, assim manifesta em versos largos? Ela mesma a voz poética de Horácio Costa.

 

 

 

[1] Ana Cristina Joaquim é mestre em Filosofia pela UNICAMP (2011) e atualmente desenvolve uma pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo. Organizou a antologia poética Anamorfoses (Annablume, 2014) e, em parceria com Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, publicou o livro Polifemo (Córrego, 2014). É editora da Revista Desassossego e tem diversos artigos e poemas disponíveis em revistas especializadas.

 

 

[2] COSTA, Horácio. “Da leitura” In: Satori. São Paulo: Iluminuras, 1989, p. 43.

 

[3] COSTA, Horácio. “Nota introdutória” In: Paulistanas/Homoeróticas. São Paulo: Lumme Editor, 2007, p. 3 do encarte que acompanha o livro.